Síndrome de Estocolmo
Martha Medeiros
Recentemente voltou à pauta a instigante síndrome de Estocolmo, em função do sequestro estranhíssimo da austríaca Natascha Kampusch, que ficou oito anos presa num cativeiro de seis metro quadrados. Não sou muito de desconfiar do que ouço por aí, mas este é um caso em que me ocorreu a frase “esta história está mal contada”, porque não é possível que a primeira chance de fuga tenha surgido apenas oito anos depois de ela ter sido capturada. De qualquer maneira, não é da minha conta. O que me traz até aqui é o afeto desenvolvido entre vítima e algoz, tão comum na vida da gente também.
O ódio é um sentimento dos mais possantes. Odiar alguém demanda muita energia, atiça o pensamento, acelera o coração. É claro que isso tem algo a ver com amor, pois se o odiado não fosse tão merecedor de uma reação emocional nossa, o que sentiríamos por ele seria indiferença, que não exige dedicação nenhuma - o que corrói muito mais nossos inimigos. Indiferença é que é letal.
A Síndrome de Estocolmo está presente em crimes bem mais comuns e populares do que o sequestro. Mulheres que apanham dos maridos - e não reagem - desenvolvem, de certa forma, a síndrome também. Ok, muitas delas dependem financeiramente de seus agressores e não têm para onde ir, mas há inúmeras que apanham e não denunciam nem fogem porque, ora, gostam do seu homem. Estabeleceram um laço afetivo com ele, e este afeto, geralmente é torto, míope. O soco pode significar para ela apenas um toque, pode ser uma maneira de confirmar que ele a percebe, que ele a enxerga, que ele não lhe é indiferente.
E este é só um exemplo da dependência que se estabelece entre dominado e dominador. Todos nós temos uma atração por quem procura tolher nossos passos. Algumas mulheres, por exemplo, detestam maridos excessivamente ciumentos, mas ficam ainda mais revoltadas se seu homem não liga a mínima para onde ela vai ou para o que ela faz. Costumamos esquecer o nome de quem nos elogia, mas nunca o nome (e o rosto, a altura, a largura e o RG) de quem nos critica. Se é com nosso pai com quem temos mais atrito na família, é a ausência dele que provocará mais dor. A amiga que mais implica conosco é a que mais queremos agradar. De qual professora você mais lembra? Da que expulsou você de aula, claro. O namorado mais inesquecível foi aquele que a fez chorar, e não aquele que trouxe flores todos os dias. E Deus é tão mais amado quanto mais nos poda e nos chama de pecadores. Um Deus que aceitasse todos os nossos atos, que não instituísse 10 mandamentos, que não exigisse penitências, que não nos desse sermões, não haveria de ter tanto quórum.
Uma vez assisti a uma cena chocante dentro de um vagão de metrô. Uma mulher bateu na cara do seu filho pequeno, de uns oito anos. Não sei o que ele fez, mas foi um tapa tão humilhante, tão dolorido, que me segurei na cadeira para não voar no pescoço dela. No instante seguinte ao tapa, ela levou sua mão até bem perto da boca do menino, e ele a beijou. O menino beijou a mão que o agrediu, ele não me pareceu nem um pouco revoltado. Ficaram ambos de mãos dadas o resto da viagem, ele com um ar de quem se sentia protegido. Talvez mais do que isso: amado.
Não repitam essa cena em casa, mães. Há outras maneiras de ser tirana sem ser brutal. Por exemplo, é sabido que filhos precisam ouvir dos pais um não de vez em quando, para reconhecer limites e saber lidar com a frustração. Pais que sempre fazem tudo o que a gente quer não costumam frequentar a lista dos mais admiráveis.
Fui longe, viajei, mas a conclusão é que a alma humana é louca mesmo, daí o seu fascínio.
Domingo, 24 de setembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.